Emoções
- 29 de jun.
- 2 min de leitura
Atualizado: 1 de jul.

POLISENI, Jennifer
Emoções
2026
Série fotográfica de autorretratos
Fotografia digital
Faz três anos que fiz essas fotos. Na época estava morando na França. Confesso que reacessar essas fotos reverbera muitas emoções dentro de mim. Lembro que viver de fotografia ainda era um desafio. A fotografia na verdade é mais uma maneira de expressar minha arte, não é o que sou. Nessa época passava por momentos de incerteza e muita angústia. Sentia coisas que não podia verdadeiramente expressar.

Então, apoiei a câmera num tripé improvisado, me posicionei de costas para a janela e, enquanto apertava o botão de disparo remoto, exorcizava ali o que vinha. Depois viraram fotos guardadas no meu disco de memória, não sabia ao certo o que fazer com elas. Era a primeira vez que fazia uma série fotográfica de autorretratos. Acredito que nem pensava em compartilhar com o mundo, foram feitas para tirar de mim a dor que sentia de estar ali. Foi sobretudo uma libertação, encontrei nessas fotografias uma maneira de reencontrar em mim o que ali foi perdido. Tem um ditado que diz que para nos encontrar precisamos nos perder.
Minha imagem, nessa ocasião, era distorcida.

Uma mulher, de 30 anos, estrangeira, com futuro incerto, tentando viver de arte. Injusto seria dizer que não recebia apoio, contudo, era cobrada de ter resultados que justificassem eu ficar uma tarde inteira fotografando.
Talvez se autofotografar é quando perdemos o interesse pelo mundo de fora. Quando o que vemos perde o sentido e a beleza, sendo assim, somos incapazes de fotografar. Por isso, a única alternativa é se olhar de novo e ressignificar tudo que aconteceu até chegar ali.
Ali eu estava, morando numa casa que não era minha, vivendo de um jeito que não era meu, falando um idioma que não era o meu. De alguma forma, tinha esquecido minhas raízes, ou melhor, não entendia o que elas significavam para mim. Quando o corpo rejeita o território ou o território rejeita o corpo, perde-se o sentido de ser.
Lembro que, quando olhei as fotos no visor da câmera, sabia que tinha conseguido chegar na estética que queria, mas, ao mesmo tempo, não reconhecia aquela mulher de personalidade significativamente expressiva que ali se apresentava.
Três anos depois, reacesso essas imagens e entendo que a complexidade desse ensaio não poderia se resumir a uma ou três fotos. Elas falam em conjunto, tudo é parte de um e esse tudo sou eu.



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