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Augúrio

  • 1 de jan.
  • 3 min de leitura

POLISENI, Jennifer

Augúrio

2026

Modelagem manual, argila reciclada e engobe.

40 x 46 x 35 cm

Coleção da artista


Augúrio é uma escultura cerâmica sonora vestível que investiga o som do barro e como isso se relaciona com o corpo.


Depois do Udu, surgiu o desejo de investigar o ar. Fiquei fascinada com os trabalhos do José Vitancio, que faz esculturas sonoras de barro baseadas no som dos animais, sobretudo dos pássaros. Entretanto, queria me desafiar, queria que esse som fizesse parte do meu corpo ou que o meu corpo fizesse parte desse som. Então, encontrei o trabalho da Natália Skromov, que me fez acreditar que seria possível fazer esse “casco sonoro”.


A peça foi construída em camadas, com argila reciclada.

Fui sobrepondo pequenos discos de barro numa base de balde e papelão. Essa estrutura surgiu em diálogo com o professor Carusto Camargo.

Na cerâmica tem disso, para criarmos algo, muitas vezes precisamos improvisar com o material que há disponível. É importante ter a técnica e noções básicas para se trabalhar com o barro, contudo é essencial criatividade e resiliência para concretizar o que está no imaginário.

Com a forma pronta, parti para o processo de criar em cima dela. Não sabia ao certo se as formas viriam de maneira espontânea ou se eu teria que desenhar e desenvolver melhor o projeto antes. Resolvi soltar, fiz uma breve pesquisa em livros de escultura para ter ali alguma inspiração. Sabia que eu queria fazer algum animal, então escolhi a coruja. Não poderia ser qualquer coruja, pesquisei sobre as nativas, encontrei a Jacurutu, o maior rapinante noturno do Brasil, também conhecido como corujão-orelhudo.


Conforme o desenho da coruja ia se formando pensei em raízes que iriam conectar essa ave com toda a peça. Gosto de criar o que vai além do "real". O surreal e o imaginário é muito mais interessante e capaz de criar um vínculo com o real de forma mais espontânea, como no livro de Carl G. Jung, O homem e seus símbolos. Acredito que são pelos símbolos que entendemos nossa verdadeira natureza, nossas raízes.

Como seria algo que vestiria no meu corpo, por que não criar um rosto, nas costas da máscara? Então o um virou três e com a Coruja quatro. Os rostos vieram muito dos momentos em que ia no ateliê trabalhar. Dependia de quanto argila tinha do que eu queria expressar naquele momento e como eu conseguiria integrar aquele rosto na peça de uma forma que virasse um só, corpo-terra. Então o rosto da Lua, do Sol e do Ar.

Finalmente, chegou a parte mais difícil, eu diria: a ocarina. Pesquisei bastante, sobre como esse instrumento funciona exatamente, pois afinal, eu teria que criá-lo e integrá-lo na peça. Tentei fazer diretamente na peça, contudo para a ocarina funcionar é necessário fazer testes com o sopro constantemente. Sendo assim, como já estava há semanas trabalhando na peça, o barro já estava mais consistente, quase chegando no ponto de couro. Então era muito arriscado ficar movimentando a peça para acessar o interior dela e fazes os testes.

Assim, após alguns testes criando ocarinas menores para entender com maior precisão o funcionamento desse instrumento, criei a ocarina para o som da coruja, que assim que chegou no mesmo ponto/tempo do barro da peça, eu agreguei com hachuras e barbotina. Depois fiz mais alguns detalhes e pintei lugares específicos com engobe marrom, feito casualmente naquele dia pelo meu colega do curso de Artes Visuais, Cadu.

Assim surgiu o Augúrio, uma obra cheia de personalidade, pesquisa e desafios: um corpo de terra atravessado por ar.










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